Sejamos realistas. A necessidade de se instituir em lei quem pode e quem pode disputar as eleições só faz sentido porque o eleitor brasileiro ( eu, tu e eles ) não tem maturidade para tornar inelegível no voto os políticos fichas sujas.
Essa é a única verdade: não condenamos no voto nossos políticos. Elegemos nossos Jader Barbalhos e Paulos Malufs, nossos Collors e nossos Arrudas como a mesma desenvoltura que os bispos escolhem o Papa, considerando-o infalível.
Daí a necessidade do projeto Ficha Limpa. Sem ele, o debate vira subjetivo.
Sendo ou não sendo ficha limpa, por exemplo, o ex-governador Cássio Cunha Lima tem a preferência de 45% dos eleitores paraibanos, o que significa um milhão de votos, conforme últimas pesquisas para senador.
Os que votam nele consideram Cássio elegível mesmo que qualquer lei diga que ele pode ser candidato. E os que não votam consideram Cássio inelegível mesmo que qualquer lei diga que ele não pode ser candidato.
Isso vale pra qualquer político do Brasil. Os malufistas, por exemplo, consideram que Maluf será sempre elegível, exista lei ou não pra dizer o contrário.
Aí onde reside o problema. Para tornar a seleção dos candidatos algo objetivo, já que falta maturidade ao eleitorado, é preciso recorrer a leis como o Projeto Ficha Limpa, certamente um grande avanço no país.
.jpg)
Mas convenhamos: a objetividade não pode passar por cima do sistema jurídico vigente, sem que haja anulação das normas já instituídas. E o projeto Ficha Limpa, do jeito que está sendo manejado pelos tribunais, dá sinais que vem para atropelar alguns princípios já consagrados.
Pausa. Momento para fugir das pedradas. Sigo em frente. Está claro que é o interesse público que vem prevalecendo no debate do Ficha Limpa. Estamos de volta, portanto, ao mundo subjetivo, nos afastando de um pensamento mais legalista.
Ora, se for para atender ao clamor da sociedade, deveríamos matar nossos políticos. Isso mesmo. Usemos o mesmo método dos campos de concentração nazistas, construamos nossas câmaras de gás e levemos um por um para morrer asfixiados, já que “político não presta”.
Não é isso que, no fundo, nós queríamos? E porque não instituímos isso em lei? Simplesmente porque matar no Brasil é crime com previsão penal. E nenhuma lei poderá derrubá-la sem que um projeto anule parte do Código Penal.
Vale o mesmo para o Ficha Limpa. O objetivo é “limpar” o Brasil dos maus políticos. Mas não se pode fazer isso passando por cima de um arcabouço jurídico montado.
Retroagir para aplicar duas penas, como registrou o presidente da AMB, Mozart Valadares, aplicar uma regra que muda o curso das eleições no ano do processo eleitoral, e até mesmo quebrar o princípio da presunção da inocência, não se tratam de posturas legalistas. Mas sociais.
Nova pausa. Novas pedradas. Continuo.
Está claro que os tribunais – sejam os TREs, seja o TSE ou até mesmo o STF – estão prontos para ouvir o clamor social e deixar de lado princípios constitucionais. Ficou claro isso na sessão do TSE da última quinta. Nenhum tribunal quer ficar abaixo do Congresso Nacional, uma casa desacreditada perante a população.
Não sabendo eles que tudo não passou de relativa demagogia e casuísmo. Ora, é impressionante como os deputados e senadores que redigiriam e aprovaram a lei estão perguntando agora aos tribunais como usa-las. Palhaçada somente vista no Brasil. Depois reclamam que os tribunais estão roubando a prerrogativa dos parlamentares de legislarem.
Dão o direito para isso, como prostitutas que ficam na rua se expondo ao deboche dos passantes.
De qualquer forma, ministro nenhum quer ser apedrejado na rua, especialmente, sabendo que deputados e senadores estão recebendo tapinhas nas costas por aprovarem o Ficha Limpa.
Fogem do debate, sabidamente impopular, porque sabem que a Constituição Federal não tem braços pra atirar pedras.
Luís Tôrres